Passei os últimos dias revisitando anos de trabalho para atualizar meu site. Na verdade, ainda estou nesse processo... mas achei que seria só uma tarefa prática. Escolher fotografias e organizar as histórias.
Mas, sem perceber, comecei a revisitar muito mais do que imagens.
Existe uma estranha sensação em olhar para fotografias feitas há sete, oito, dez anos.
Algumas famílias cresceram. Ou agora existem em outras configurações.
Algumas crianças já nem são mais crianças.
Casas mudaram.
Mas existe uma coisa que permaneceu igual em todas elas: a forma como eu escolhi olhar. E digo no sentido de olhar um todo e também cada história.
Ainda acho o máximo receber a permissão para entrar na casa das pessoas e fotografá-las justamente ali no lugar onde elas baixam a guarda, onde vivem a rotina, onde a vida realmente acontece. Assim como fico encantada de conseguir a atenção de uma criança em poucos minutos. Energia que bate, talvez? Não sei, pode até ser.
Enfim, o que eu quero dizer é que um portfólio nunca mostra tudo. Ele é apenas um recorte.
Mas, enquanto fazia esse recorte, percebi uma coisa curiosa: apesar de fotografar famílias diferentes, com realidades diferentes, em casas diferentes e momentos diferentes, eu sempre estive procurando as mesmas coisas.
Meu olhar procura por gestos, encontros, os pequenos silêncios; as mãos que se encontram quando acontece de caminharem pelo mesmo sentido da sala para a cozinha; os olhares distraídos; nas coisas que para quem tá ali todos os dias pode ser banal e corriqueiro, e que pra mim é não só novidade mas também identidade; o cotidiano que insiste em ser maçante mas que tem seus momentos de leveza e cumplicidade; a luz que entra pela janela no final da tarde...
Tudo que para você pode ser rotina, pra mim é a sua forma de estar presente na vida. E é tudo o que você vai sentir falta lá na frente quando tudo for diferente.
A fotografia acontece no presente. É a saudade que vem depois que mostra o tamanho dela.
No fim das contas, essa tarefa me lembrou exatamente por que continuo fazendo isso. Porque acredito que as histórias mais bonitas quase nunca estão nos grandes acontecimentos. Elas moram numa terça-feira qualquer, entre a sala e a cozinha, enquanto a vida simplesmente acontece. E é justamente aí que eu gosto de estar.
Se um dia você sentir vontade de guardar esse tempo também, espero que a gente se encontre.